02 CAPÍTULO II
PANDEMIA – ANO 100
(Um Guia Literário Para As Aulas De História)
Capítulo II
As folhas amareladas, vindas de uma garrafa, eram duas, escritas em letra cursiva, coisa que já quase não era usada mais, mas pessoas alfabetizadas ainda reconheciam, a letra era suave e sem floreios, a leitura pareceu clara para Elena, mesmo que ela não fosse acostumada a ler com letras cursivas, sabia escrevê-las, foi ensinada e lembrava-se bem das letrinhas “dando as mãos”, como dizia seu pai, que chamava aquelas letras pelo nome engraçado de “letras de mão”.
Eis o que Elena leu, dessas folhas vindas da garrafa:
“Estou preocupado, preocupadíssimo na verdade.
Não sei como está aí, exatamente, não sei quem poderá ler essas palavras lançadas na sorte, penso que é como jogar dados, joguei seis dados e espero que os seis dados caiam com o número seis para cima, qual é a probabilidade de acontecer?
Não vejo, contudo, forma mais segura de comunicação e ainda que eu gritasse em praça pública numa grande cidade, ainda que eu anunciasse num grande canal da internet, ainda que minha voz fosse ouvida no planeta todo, não seria fácil para alguém me escutar.
Já percebeu que sempre há um ruído? Sabia que se você ficasse numa sala a prova de som, completamente sozinha, você ouviria dois sons constantemente: o grave do bater do seu coração e o agudo da eletricidade do seu cérebro, antigamente havia professores em salas de aula e muitos deles, em momentos de algazarra dos alunos, que eram vários por sala, gritavam: “SILÊNCIO!”, nesses momentos os alunos poderiam argumentar que silêncio, apenas depois de mortos.
O poeta Shakespeare já dizia no início do século XVII, através do seu personagem Hamlet, príncipe da Dinamarca, que ao estar morrendo no fim da peça solta sua última fala para seu amigo Horário: “o resto, é silêncio”.
Estou tão só, faz tanto tempo, que na primeira oportunidade de conversar já fico falando sem parar, mesmo que talvez eu esteja conversando sozinho, será que você pegou essas folhas para ler e as largou antes de terminar? Perderia alguma coisa com isso? Acho que não... mas também não ganharia.
Vou contar, abrir o jogo, não esconderei quem sou, nem onde estou e como vim parar aqui, explicarei porque preciso de ajuda e como você poderá me ajudar se estiver disposta.
Estou preso nesse momento, sou um náufrago em uma ilha, mas também sou um astronauta, isso porque fiquei ilhado em um mar lunar depois que minha cápsula de pouso falhou e caiu no meio do mar. Devo dizer que eu ter sobrevivido foi muita sorte, chamamos de mar lunar esse aglomerado de líquido que chamam de água lunar mas não passa de água radioativa, já te contaram das experiência de 2087? Para criar vida na Lua? Falhou, mas criamos um grande mar radioativo, por isso digo que foi muita sorte ter sobrevivido, aparentemente o revestimento da cápsula de pouso era resistente, apesar de todo o resto dela ter falhado, mas também dei azar de ter sobrevivido, pois vivo no tédio aqui na ilha que nem nome tem.
Meu objetivo aqui na Lua era justamente colher amostras dessa água lunar radioativa e realizar diversos experimentos de filtragem para ver se é possível recuperar o mar e prosseguir com os experimentos originais. Agora eu consigo colher essa água, mas meus equipamentos de testes foram todos perdidos no naufrágio, não dá nem para acender uma fogueira como um náufrago faria no planeta Terra, mas tenho uma série de luzes e baterias que consegui recuperar e as acendo, ainda que não existam animais selvagens para espantar, desde que estou aqui eu como ração de astronauta das muitas latas que chegaram pelo mar depois do naufrágio, não tem gosto de nada, mas não morrerei de fome tão cedo, espero que não estejam contaminadas.
Quando vim para o espaço (talvez você se lembre, talvez não) eu virei notícia, “o primeiro astronauta negro do Brasil”, não é grande coisa, eu não queria vir para a Lua, sabia que o experimento era arriscado, eu queria ir para Marte, para Vênus ou passar uma temporada na Estação Espacial Internacional, mas me transformaram em um lixeiro tóxico, me falaram “vai lá e limpe o mar da radiação invisível” e eu disse “ok, eu preciso do salário e ainda tenho esperanças de receber uma missão que provavelmente não me mate”, pois é, o tempo passa mais rápido do que as coisas mudam.
Apesar de estar preso, não estarei preso para sempre e assim como meus ancestrais eu me recuso a morrer com facilidade. Voltarei para o planeta Terra.
Contudo, o ócio e o tédio dominantes nesse lugar me colocam em situação de pensar em questões que normalmente não pensamos, mas são importantes, por isso eu comecei essa carta dizendo que estava preocupado.
Quando saí do planeta Terra as coisas não estavam muito boas, mas qualquer um que tenha tido algumas aulas de História sabe que as coisas nunca foram boas para a maioria das pessoas e que isso não é motivo suficiente para não lutar por mudanças. O que me preocupa é que talvez as pessoas estejam esquecendo.
Pois é, um problema de memória. Mas é uma memória complicada, não é uma memória de algo que vivemos, mas de algo que outras pessoas viveram no passado, não se pode esquecer essas coisas assim e esperar que tudo siga por um caminho bom e favorável.
Será que as pessoas ainda se lembram que nossos ancestrais pulavam de árvore em árvore? Será que as pessoas ainda se lembram que nossos ancestrais cruzaram os mares mil antes dos portugueses? Será que as pessoas se lembram que nossos ancestrais foram escravizados e lutaram contra isso? Será que as pessoas se lembram que o Imperador engordava enquanto o povo minguava de fome? Será que as pessoas se lembram que cada direito que exercem, do voto, de se expressar livremente, de ter acesso à cultura, à educação, à saúde e outras coisas essenciais foi conquistado por muitos anos de luta à custa de muitas vidas? Será que as pessoas se lembram que havia escolas e que nesses locais os jovens se reuniam para aprender sobre diversos assuntos com especialistas, existiam especialistas de diversas áreas do conhecimento humano: história, geografia, filosofia, sociologia, química, física, matemática, língua portuguesa, inglês, artes, educação física, biologia... além disso, era uma oportunidade para esses jovens conviverem com seus pares, com pessoas de outros meios sociais com as quais nunca iriam conviver fora do ambiente familiar e ainda tinham direito à um café e um almoço, que às vezes não era grande coisa, mas sempre agradava. Talvez seus pais já tenham contado sobre as escolas, mas você teria que ser uma velhinha de idade bem avançada para que seus pais tivessem frequentado a escola.
É claro que agora as aulas ainda acontecem, pelos canais da internet. Mas a escola existe apenas como monumento esquecido do passado. Por isso me preocupo, se antes a escola mantinha essa memória viva na sociedade, será que essa memória ainda existe nas pessoas.
Essa memória de coisas que não vivemos é o que chamamos de História. Faça um favor para mim, se puder, se não incomodar e principalmente se a falta de memória histórica também te incomodar: pergunte para as pessoas se elas se lembram das coisas do passado, preciso saber como estará o lugar para onde voltarei uma hora.
Espero que esse problema também te preocupe, eu me sentiria menos só sabendo que mais alguém se preocupa com a memória histórica e minha condição de náufrago seria mais tolerável.
A sua resposta (se assim você se dispor) pode ser colocada no mesmo local onde caiu a garrafa ou onde você a encontrou, eu tenho apenas as coordenadas do local onde ela caiu, não tenho mapas, gostou da garrafa? É um estilo antigo, como faziam os náufragos conhecidos dos séculos XVI, XVII e todos os que vieram depois, faz todo sentido, pois 70% da superfície do planeta Terra é formada por água, pode enviar sua resposta na mesma garrafa.
Apesar de ter perdido quase todos os meus equipamentos, consegui recuperar o meu teletransportador de artefatos pequenos que pode tanto enviar quanto pegar pequenas coisas instantaneamente, mesmo que 384.400 quilômetros nos separem. Só peço que, se essa garrafa caiu em um mar, lago ou rio, me mande as coordenadas exatas de onde sua mensagem vai ser colocada, isso pode ser visto em qualquer aplicativo ou site de mapeamento, normalmente no canto inferior direito da tela.
Só tome cuidado, se o seu gato ou cachorro, por exemplo, estiver perto da mensagem a ser enviada para mim, posso cortar o bichano sem querer, o mesmo vale para seus dedos.
Espero tua resposta, desconhecido leitor.
Assinado: Náufrago da Lua.”
Poderíamos dizer que Elena estava de queixo caído, com a boca aberta mesmo, a primeira coisa que percebeu é que ele usava pronomes femininos, normalmente as pessoas usam pronomes masculinos quando falam com várias pessoas ou não sabem com quem estão falando, mas ele usou um pronome feminino, portanto, sabia que falaria com uma mulher, ainda que fosse uma menina, percebeu que a garrafa não se desfez e nem quebrou no caminho de queda da Lua para a Terra, depois perguntou-se se não era uma mentira e havia alguém que estivesse por ali, talvez até um morador.
Considerou, naquele momento, tudo isso irrelevante no fim das contas, não importava a história, era boa e ela estava entediada mesmo, sozinha e com vontade de conversar.
Aceitaria, portanto, o pedido o Náufrago da Lua.

Comentários
Postar um comentário